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Rocha negra de basalto
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| Esta história já é do meu tempo, mas o Ventor contou-ma a mim e eu conto-a a vocês. | ||||
| Numa manhã, meio sol, meio sombra, aqui este vosso amigo, levanta-se, olha pela janela, e vê as ramadas da árvore da rua, frente à janela, a vassourar o vento. O vento passava e a árvore sacudia-se toda a tentar vassourar o atrevido, que a ia atirando contra a parede e contra as vidraças da marquise, no mesmo tempo que, umas réstias de sol penetrante se entretinham a espreitar a refrega entre os dois. Eu olhei e apercebi-me que umas nuvens brancas, também partilhavam dessa festa anacrónica, a cinco. Eu, o vento, a árvore, o sol e as nuvens.Fui-me vestindo, ao mesmo tempo, que fazia exercícios de aquecimento, e arranjava forma de ir ganhando ânimo, para as restantes tarefas matinais, tal como fazer a barba, tomar duche, tomar o pequeno almoço, calçar-me e imaginar o que fazer, para continuar o meu dia o mais operacional possível, uma vez que a minha coluna me prega partidas de vez em quando, na hora que lhe der na real gana.Ouvi uma voz, um apelo de que havia falta de pão uma vez que as visitas tinham tomado conta dele na véspera, e eu achei logo ser ideal, ir buscar o pão, o mais longe possível dentro das minhas possibilidades que, no momento, não estavam a ser grande coisa, para poder dar algum alento aos discos lombares que, em certos momentos, precisam de afago.Disse que ia buscar o pão e que ia a pé, e não sabia quando vinha, pois ia aproveitar para dar uma caminhada, tanto quanto pudesse. | ||||
| Desci rua abaixo, até aos bombeiros da Amadora, subi o Alto do Maduro, fui buscar umas análises, da minha mulher, e aproveitei para ir ao banco e, como ainda não estava satisfeito, fui a outro banco tratar de outro assunto, atravessei a Amadora até à Casa do Rei para trazer o pão que eu quero, mas por azar, era 2ª feira e estava fechada. Voltei e parti direito ao Borel, onde fui buscar o pão, e sentei-me para beber um café, numa mesa junto à janela, virado para a cobertura visual do IC 19, direito à serra de Sintra. Sempre que me sento ali, dou uma olhada para o meu castelo, bem alcandorado sobre a serra, numa posição majestática, mais parecendo um ninho de águias, sempre aprumado e altivo pronto para abraçar todo o mundo e arredores. Pois como devem imaginar, da serra de Sintra, apesar da sua pequena altura, consegue-se abarcar o Mundo! E se eu abarco com a minha vista, desde o Borel, aquele belo castelo, e o castelo abarca o Mundo, eu Ventor, através dele, também abarco o Mundo. Bebi o meu café e peguei no pão, regressando a casa, e mais uma vez, não utilizei o caminho mais curto, mas segui pelo mais longo. |
Uma pequena borboleta encontrada na serra da Mira |
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Subi em direcção do Casal de S. Brás, e depois desço por um novo jardim que vai ser grande, segundo o Presidente da Câmara me disse, pois irá abarcar toda a zona da Falagueira ocupada pelas barracas junto à ribeira do mesmo nome. Ao descer o jardim, perante uma réstia de calor matinal, já junto ao meio dia, apercebi-me que nesta altura do ano, ainda havia borboletas. Lindas borboletas! O Mundo anda todo virado do avesso, ou eu estou a perder qualidades porque cada vez o vejo mais assim. Mais do avesso! |
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Fiz um desvio e, aproximei-me do “caneiro” da Falagueira, é assim que eu chamo à ribeira, e decidi espreitar o local onde as borboletas foram pousar, depois de virem sempre a dar à asa à minha frente, até junto dos arbustos e do canavial ali existente. Espreitei e verifiquei que junto a umas canas, o local era bem escuro. Aproximei-me mais e, imaginem, descobri uma rocha que muita gente terá deixado de ver devido às “machambas” ali existentes e ao matagal junto à água corrente, mas conspurcada pela poluição como todas as águas correntes, hoje em dia. Voltei a ver as borboletas, lindas como sempre, e ao tentar regressar ao caminho, ouvi um, pzz , pzz, pzz, e achei que era um passarinho que estava ali, se calhar como eu, mas com outro fito, a observar as borboletas. |
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| O pzz, pzz, voltou-se a repetir, e eu voltei a olhar. Qual o meu espanto, quando uma voz magnífica se levanta do meio da rocha e me chama: “Ventor, Ventor”! Eu começo a olhar e não vejo mais nada que a rocha negra! A voz repete: “Ventor, que vês”? Vejo uma rocha –disse eu - uma rocha negra!“Pois” – diz a rocha – “é assim que toda a gente me vê. Não passo de uma rocha! Mas eu sou mais que isso, Ventor. Lá que as outras pessoas não me vejam, eu ainda aceito, mas tu Ventor!? Tu não consegues olhar para a rocha e ver-me”? Bem, eu estou reduzido a um simples observador dos homens, mas tu, estás para além de uma simples criatura humana. Por isso me tens passado despercebida, mas já agora, identifica-te e diz-me que fazes aí, como uma mera rocha negra? Como calculas não tenho assim tanto poder que possa aperceber-me de todos os sons que ouvi através dos milénios!Assim falou para mim aquela rocha negra: | ||||
| Eu percorri todos os caminhos dos arautos da poesia, que através dos tempos têm cantado canções já esquecidas dos homens e do tempo. Vulcano furioso com a minha condescendência para com os primeiros habitantes desta linda terra que posteriormente veio a ser a tua Lusitânia, lançou-me um anátema e transformou-me nesta rocha negra, que tu vês! Por aqui tenho estado há milénios, desde o tempo que Vulcano revolveu toda esta terra e me transformou num amontoado de lava consistente e dura para toda a eternidade”. | ||||
| Essas borboletas que tu tens vindo a apreciar, são as minhas companheiras de infortúnio. Foram elas que te foram buscar aí a cima, e te trouxeram até mim, pois eu sempre que te vejo passar, apetece-me falar-te, mas tu segues sempre apressado e determinado na persecução dos teus objectivos que nunca me atrevi a implorar-te o teu reconhecimento da minha desventura. Hoje estás mais calmo, sem pressas e pronto a ouvir todos os desgostosos dos seus infortúnios e achei que estava na hora de alguém ficar a saber da minha existência aqui, em forma de rocha, e que muitos, já se atreveram a confundir com uma moura encantada. As mouras de que falam são as ninfas que me guardam e que se transformam em borboletas na tentativa de inspirar as pessoas a terem forças, senão para cantarem as suas novas canções, pelo menos a continuarem a suportar, no seu infortúnio o peso das injustiças”. | ![]() Uma fada dos bosques |
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Mas olha Ventor, eu já fui feliz aqui, em forma de pedra negra, quando esta ribeira era percorrida por águas límpidas, e as suas encostas eram floridas. Esta já foi uma terra idílica cheia de flores, e muitos outros encantos da Natureza. Ainda há bem pouco tempo, alguns anos apenas, eu servia de lavadouro às mulheres da terra. Eu via por estas margens as crianças brincarem, atrás das minhas borboletas, a apanharem flores, e deliciando-se a ouvir o cântico dos grilos e dos ralos. Viam saltar os gafanhotos, e o esvoaçar das libelinhas, azuis e verdes e banhavam-se nas águas límpidas que escorriam encostas abaixo abençoadas por S. Brás. Agora, só vejo à minha volta, a conspurcação total, que desce desde a serra da Mira, e se vai infiltrar naquele rio que eu já fiz o mais lindo de todos. O Tejo já foi invejado pelo Reno, pelo Sena, pelo Danúbio e pelo Tamisa. Todos os grandes rios da Europa já invejaram o Tejo, pelo sua beleza bucólica, pelas suas águas puras, pelas suas Tâgides. O Reno teve o seu Anel de Nibelungo, o Danúbio teve o seu azul, as suas balsas e os seus cisnes, mas o Tejo teve na sua embocadura as partidas de grandes esperanças e as chegadas de fragatas cheias de mundos. Luta por isso tudo Ventor! Luta para que esta ribeira volte a ter vida limpa, para que a minha aparência, embora negra, volte a ser airosa e bela. |
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| Bem, enquanto a rocha se chora ao Ventor e ele não me |
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